Enquanto o café passa… “Eu fui ao show da Xuxa” por Gui Tupich
A nave pode até fazer seu último voo
Eu fui ao show da Xuxa.

E talvez essa frase, dita por um homem adulto, casado, pai de dois filhos, pareça simples.
Mas não foi.
Em Curitiba, havia cerca de 40 mil pessoas. E olhando ao redor, uma coisa me chamou a atenção: eram milhares de adultos de 40, 50, 60 anos cantando músicas que aprenderam quando ainda estavam descobrindo quem eram.
E, por algumas horas, parecia que ninguém precisava ter vergonha disso.
Tocou Ilariê.
Tocou Lua de Cristal.
Teve gente cantando, pulando, chorando, fazendo cabeça, ombro, joelho e pé.
E eu fiquei olhando aquilo tudo e pensando:
em que momento a gente aprende que precisa parar de brincar?
Quando é que alguém determina que certas coisas não combinam mais com a nossa idade?
Porque a gente cresce cercado de pequenas regras.
Isso pode.
Isso não pode.
Isso é bonito.
Isso é feio.
Isso é coisa de criança.
Isso não é mais coisa da sua idade.
O que os outros vão pensar?
E o corpo vai aprendendo também.
Aprende a segurar o gesto.
A diminuir a risada.
A disfarçar o entusiasmo.
A engolir o choro.
A não dançar tanto.
A não demonstrar tanto.
A não ocupar tanto espaço.
A caber.
Na Psicologia Corporal, a gente fala muito das couraças que construímos ao longo da vida. Proteções que um dia talvez tenham sido necessárias, mas que, com o tempo, podem também endurecer a maneira como existimos no mundo.
E naquele lugar aconteceu uma coisa curiosa.
Por algumas horas, algumas dessas couraças pareceram afrouxar.
Não porque alguém fez terapia ali.
Mas porque, talvez, ninguém estivesse preocupado em parecer adulto demais.
Eu também não estava.
Meu marido e eu estamos juntos há 21 anos.
Somos dois homens.
Construímos uma vida juntos.
Temos dois filhos.
Dividimos casa, contas, preocupações, alegrias, medos, rotina.
Uma vida inteira cabe nesses 21 anos.
Mas naquela noite aconteceu uma coisa que nunca tinha acontecido antes.
Nós andamos de mãos dadas em público.
E demos um selinho.
Pela primeira vez em 21 anos.
Parece pequeno.
Duas mãos.
Um beijo rápido.
Alguns segundos.
Mas foram necessários 21 anos para que o nosso corpo se sentisse seguro o suficiente para fazer uma coisa que tantos casais fazem sem sequer perceber.
E talvez tenha sido isso que mais tenha ficado comigo depois daquele show.
Não foi apenas a nostalgia.
Não foi apenas rever a Xuxa.
Não foi apenas lembrar da infância.
Foi perceber o quanto passamos a vida esperando alguma espécie de autorização.
Autorização para brincar.
Para dançar.
Para chorar.
Para amar.
Para demonstrar.
Para sermos ridículos de vez em quando.
Para continuar sentindo entusiasmo por coisas que não precisam ter nenhuma utilidade.
Para continuarmos vivos depois que crescemos.
Talvez seja essa a pergunta que eu trouxe daquela noite:
quem nos dá permissão para continuarmos vivos depois que crescemos?
Talvez ninguém dê.
Talvez essa permissão precise ser nossa.
Porque crescer não deveria significar abandonar tudo aquilo que fazia os nossos olhos brilharem.
Amadurecer não deveria significar endurecer.
E ser adulto não deveria exigir que a gente passe o resto da vida tentando parecer menos vivo.
Naquela noite, no meio de milhares de pessoas, eu não vi adultos tentando voltar a ser crianças.
Vi adultos encontrando partes de si que nunca deveriam ter precisado esconder.
Eu encontrei algumas das minhas também.
Uma delas estava segurando a mão do homem com quem divido a vida há 21 anos.
E talvez seja por isso que eu tenha entendido uma coisa:
a infância passa.
Os palcos mudam.
A gente envelhece.
Algumas histórias chegam ao fim.
Até a nave, um dia, precisa fazer seu último voo.
Mas quem disse que a gente precisa parar de voar?
Enquanto houver alguma coisa dentro de nós capaz de cantar, brincar, amar, se emocionar e segurar a mão de alguém sem medo…
ainda existe vida querendo passar pelo corpo.
E talvez crescer seja justamente isso:
não voltar a ser quem a gente era.
Mas finalmente dar permissão para que aquela pessoa continue existindo dentro de quem a gente se tornou.
Guilherme Tupich



