☕️ Enquanto o café passa: A criança que a gente deixou para trás
Uma crônica sobre o filme Duas Vidas, a infância e as marcas que o corpo carrega.

Outro dia, enquanto pensava no filme Duas Vidas, com Bruce Willis, fiquei me perguntando uma coisa: em que momento da nossa vida a gente começa a abandonar quem realmente é?
Porque ninguém acorda numa manhã e decide que vai deixar de ser espontâneo, que vai parar de chorar, que vai esconder o medo ou que nunca mais vai demonstrar suas fragilidades.
Isso vai acontecendo.
Um pouquinho de cada vez.
Às vezes, começa com uma frase aparentemente inofensiva: “Engole esse choro!”
Outras vezes, vem acompanhada de uma ameaça: “Se continuar chorando, vai ter motivo para chorar de verdade.”
E a criança aprende.
Aprende que chorar incomoda. Que sentir medo é sinal de fraqueza. Que demonstrar tristeza pode trazer consequências. Que, para ser amada, aceita ou simplesmente não ser machucada, talvez seja melhor esconder algumas partes de si mesma.
E sabe o que é mais interessante? Ela não aprende isso apenas com a cabeça.
Ela aprende com o corpo.
O maxilar começa a ficar mais rígido. A respiração vai ficando mais curta. Os ombros se contraem. O peito se fecha. O olhar aprende a vigiar o ambiente antes mesmo de a boca conseguir dizer o que está sentindo.
E, aos poucos, aquilo que começou como uma maneira de se proteger vai se transformando numa maneira de existir.
Na Psicologia Corporal Reichiana, a gente encontra uma explicação muito interessante para isso. Wilhelm Reich falava das couraças, dessas organizações de defesa que construímos ao longo da vida e que também se expressam no corpo.
E eu gosto de pensar numa coisa: antes de ser uma prisão, muitas dessas defesas foram uma solução.
A criança fez o que conseguiu fazer com os recursos que tinha.
O problema é que ela cresce.
Cresce, trabalha, constrói relações, assume responsabilidades, tem filhos, paga contas, aprende a resolver problemas.
Mas nem sempre percebe que continua usando as mesmas defesas que precisou construir quando era pequena.
E então encontramos adultos que não conseguem pedir ajuda. Pessoas que sentem culpa quando descansam. Gente que não consegue dizer não, que pede desculpas por existir, que se sente ameaçada diante de qualquer crítica.
Adultos que aprenderam tão bem a ser fortes que já não sabem mais o que fazer quando precisam ser cuidados.
No filme Duas Vidas, o personagem interpretado por Bruce Willis se encontra com a criança que foi um dia.
E talvez essa seja uma das ideias mais bonitas e, ao mesmo tempo, mais desconfortáveis daquela história.
Porque encontrar a criança que fomos não significa apenas recuperar lembranças felizes, brinquedos antigos ou aquela sensação gostosa de não precisar olhar para o relógio.
Significa também encontrar aquilo que ficou interrompido.
O choro que não pôde sair.
O abraço que não chegou.
A pergunta que ninguém respondeu.
O medo que precisou ser escondido.
E, principalmente, aquela criança que, em algum momento, acreditou que havia alguma coisa errada com ela simplesmente porque sentia.
Tem uma cena do filme que me chama especialmente a atenção, quando aparece essa relação entre a repressão do choro e uma manifestação corporal, um tique no olho.
Não porque todo tique tenha origem emocional. Seria simplista e irresponsável afirmar isso.
Mas porque a cena nos convida a pensar em algo que observo há muitos anos no meu trabalho: nem sempre aquilo que a gente consegue calar deixa de existir dentro de nós.
Às vezes, a pessoa diz que está tudo bem, mas o corpo está permanentemente em alerta.
Diz que superou, mas não consegue relaxar.
Diz que esqueceu, mas continua reagindo como se aquilo ainda estivesse acontecendo.
E não se trata de procurar culpados para tudo o que somos hoje.
Nossos pais também foram crianças. Também aprenderam a engolir choros, a esconder medos, a sobreviver com os recursos que tinham. Muitas vezes, transmitiram aquilo que aprenderam, acreditando sinceramente que estavam nos preparando para a vida.
Mas compreender de onde vêm algumas das nossas defesas não significa que precisamos continuar vivendo dentro delas.
Talvez amadurecer também tenha a ver com isso.
Com perceber que já não estamos naquele lugar.
Que hoje podemos escolher algumas coisas que antes não podíamos.
Que podemos chorar sem pedir desculpas.
Que podemos sentir medo sem nos considerar fracos.
Que podemos dizer não sem acreditar que, por isso, deixaremos de ser amados.
E que talvez não precisemos mais provar o tempo inteiro que somos capazes de suportar tudo.
Eu trabalho com o corpo há muitos anos. E uma das coisas que mais me impressionam é perceber como as pessoas, muitas vezes, chegam querendo aprender a controlar aquilo que sentem.
Querem parar de chorar. Parar de sentir ansiedade. Parar de ter medo. Parar de se incomodar.
Mas eu fico pensando se, em algumas situações, a pergunta não deveria ser outra.
Em vez de perguntar como fazemos para sentir menos, talvez precisássemos perguntar por que aprendemos que sentir era tão perigoso.
Porque o corpo não é nosso inimigo.
Ele participou da nossa história inteira.
Esteve presente quando fomos acolhidos e quando não fomos. Quando sentimos prazer, vergonha, medo, alegria. Quando precisamos nos adaptar para continuar pertencendo.
E continua aqui.
Às vezes, cansado. Às vezes, rígido. Às vezes, tentando nos avisar de que alguma coisa precisa mudar.
Talvez seja por isso que eu goste tanto da ideia de reencontrar a criança que fomos.
Não para voltar a ser criança.
Nem para transformar a infância numa explicação para todos os nossos problemas.
Mas para olhar para aquela parte da nossa história com um pouco mais de compreensão.
Para reconhecer que fizemos o que foi possível.
E, principalmente, para perceber que hoje podemos fazer diferente.
No fundo, acho que Duas Vidas fala justamente sobre isso.
Sobre a possibilidade de um adulto encontrar a criança que deixou para trás e descobrir que, junto com as dores, também ficaram esquecidas algumas das suas possibilidades de viver.
E eu termino com uma pergunta que talvez seja a mais importante de todas:
Se você pudesse encontrar hoje a criança que foi, será que ela reconheceria a pessoa em quem você se transformou?
Ou será que perguntaria, baixinho, por que você precisou deixar tanta coisa de si mesmo pelo caminho?
Talvez a gente não consiga mudar a infância que teve.
Mas pode começar a construir uma vida em que aquela criança não precise mais se esconder.
E isso, para mim, já é uma forma muito bonita de cuidado.
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Guilherme Tupich
Terapeuta Ocupacional e Psicoterapeuta Corporal
Enquanto o Café Passa… O Corpo Explica ☕



