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Enquanto o café passa… Tem uma coisa que a gente demora muito tempo para entender

há 3 minutos
2 min de leitura

Mais uma coluna por Gui Tupich, boa leitura

Tem uma coisa que a gente demora muito tempo para entender: uma criança não precisa de um mundo perfeito.


Ela precisa de um mundo suficientemente bom.


Winnicott falava disso. De um ambiente que não acerta sempre, que não impede toda frustração, que não consegue proteger de absolutamente tudo — mas que está ali. Que sustenta. Que acolhe. Que, na maior parte das vezes, consegue dizer sem palavras:


“Você pode existir aqui.”


Talvez seja uma das primeiras coisas que o corpo aprende.


Antes de sabermos explicar o que é segurança, o corpo já está procurando por ela.


No colo que chega.

Na voz conhecida.

Na maneira como alguém segura.

Na rotina que se repete.

No olhar que encontra o nosso.


E, pouco a pouco, alguma coisa dentro de nós começa a compreender que é possível baixar a guarda.


Mas crescer também significa descobrir que nenhum colo estará disponível para sempre.


A mãe se afasta.

O pai não consegue resolver tudo.

Quem cuida também se cansa.

As pessoas falham.

O mundo frustra.


E talvez o “suficientemente bom” seja justamente isso: não construir uma vida sem frustrações, mas oferecer segurança suficiente para que, um dia, a criança consiga atravessá-las sem sentir que vai desaparecer junto com elas.


O curioso é que a infância termina, mas essa procura não.


Adultos também procuram lugares onde possam baixar os ombros.


Procuramos pessoas perto das quais não precisamos medir cada palavra. Casas em que conseguimos tirar os sapatos. Abraços em que a respiração muda. Conversas em cozinhas. Uma música conhecida. Um cheiro. Uma coberta antiga. Às vezes, até uma caneca entre as mãos.


Pequenos lugares onde o corpo parece dizer:


“Aqui eu posso descansar um pouco.”


Talvez por isso algumas ausências doam tanto.


Não é somente a falta de alguém.


Às vezes, é a falta do lugar que conseguíamos ser quando aquela pessoa estava por perto.


E talvez crescer seja também aprender, devagar, a construir dentro de nós um pouco daquele ambiente que um dia precisamos encontrar fora.


Não para deixar de precisar dos outros.


Mas para conseguir permanecer conosco quando ninguém puder nos segurar.


No fim, talvez segurança nunca tenha significado viver em um mundo onde nada acontece.


Talvez seja saber que, quando alguma coisa acontecer, existe algum lugar para onde podemos voltar.


Às vezes esse lugar é uma casa.


Às vezes é alguém.


E, com sorte, depois de muitos anos, esse lugar também começa a ser a gente.

Guilherme Tupich

Terapeuta Ocupacional

Mestre em ciências da saúde

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