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Enquanto o café passa… “O CORPO QUE EU SOU QUANDO ESTOU COM VOCÊ” by Guilherme Tupich

9 de set.
3 min de leitura

Eu não tenho o mesmo corpo em todos os lugares.

Demorei um tempo para perceber isso.

Tem lugares em que eu entro e parece que meu corpo cresce.

Meu peito se abre, meus braços ficam soltos, minha voz aparece.

Eu rio mais alto.

Eu falo com as mãos.

Eu ocupo espaço.


Mas tem lugares em que acontece o contrário.


Eu diminuo.


Os ombros se fecham um pouquinho.

A respiração fica mais curta.

As mãos procuram alguma coisa para fazer.

Eu penso antes de falar.

Às vezes penso tanto que nem falo.


E o mais curioso é que continuo sendo eu.


Também acontece com as pessoas.


Existem pessoas perto de quem nosso corpo descansa.


Você conhece alguém assim?


Gente que chega e, sem fazer absolutamente nada, parece dizer para o nosso corpo:


“Você pode ficar.”


E ele fica.


A respiração muda.

O rosto amolece.

A gente encosta na cadeira.

Dá vontade de conversar.

De rir.

De contar coisas.


Mas também existem encontros em que o corpo faz exatamente o contrário.


Ele se prepara.


Às vezes a pessoa nem disse nada.


Mas o maxilar apertou.

O estômago respondeu.

A perna começou a balançar.

O coração acelerou.


E eu acho bonito — e às vezes doloroso — perceber o quanto o nosso corpo guarda histórias que a nossa cabeça já jurou ter esquecido.


Talvez por isso a gente entre em alguns lugares e se sinta em casa.


E entre em outros querendo ir embora antes mesmo de saber o motivo.


Tem cheiro que muda o corpo.


Tem música que muda o corpo.


Tem uma rua, uma casa, uma sala, uma voz…


e, de repente, alguma coisa em nós se reorganiza.


Porque o corpo lembra.


Lembra de onde foi acolhido.


Lembra de onde precisou se defender.


Lembra de quem podia abraçar.


E também de quem precisava manter a uma distância segura.


Esses dias eu encontrei uma passagem de Alcibíades, de Platão.


Sócrates fala sobre um olho que, para enxergar a si mesmo, precisa olhar para outro olho.


E eu fiquei pensando nisso.


Talvez a gente também se conheça assim.


No encontro.


Porque eu descubro coisas sobre mim quando percebo o que acontece com o meu corpo diante de você.


Tem gente que encontra em nós uma versão leve que estava escondida há anos.


Tem gente que desperta uma coragem que a gente nem sabia que ainda tinha.


E tem gente que, sem perceber, encontra aquela parte nossa que aprendeu um dia a se proteger.


Nenhuma dessas versões é mentira.


Todas contam alguma coisa sobre nós.


Por isso, talvez a pergunta não seja apenas:


“Quem é essa pessoa para mim?”


Talvez seja:


“Quem o meu corpo se torna quando eu estou diante dela?”


Eu cresço?


Eu diminuo?


Eu respiro?


Eu me protejo?


Eu consigo ficar?


Ou alguma coisa dentro de mim já está procurando a porta?


Tenho tentado observar mais isso.


Não para julgar meu corpo.


Mas para escutá-lo.


Porque talvez algumas mudanças que chamamos de exagero, timidez, ansiedade, irritação ou até antipatia sejam o corpo tentando contar uma história do único jeito que ele sabe.


Mudando.


Endurecendo.


Recuando.


Aproximando.


Respirando.


E, às vezes, finalmente descansando.


Talvez conhecer a si mesmo seja também perceber quem o nosso corpo aprendeu a ser diante do mundo.


E descobrir, com tempo e afeto, que ele também pode aprender outras maneiras de estar.


Outras maneiras de chegar.


Outras maneiras de permanecer.


E, principalmente, outras maneiras de se sentir seguro para existir.


Enquanto o café passa,

o corpo explica.


Guilherme Tupich

Terapeuta ocupacional

Mestre em ciências da saúde

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